quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Viva Nossa Senhora Aparecida

“Viva a Mãe de Deus e nossa, sem pecado concebida! Viva a Virgem Imaculada, a Senhora Aparecida!” Com as palavras deste canto tão querido ao povo brasileiro, São João Paulo II deu início a homilia que pronunciou na Dedicação da Basílica Nacional de Aparecida, em 4 de julho de 1980.  Em seguida, cheio de admiração pela fé do nosso povo disse: “desde que pus os pés em terra brasileira, nos vários pontos por onde passei, ouvi este cântico. Ele é, na ingenuidade e singeleza de suas palavras, um grito da alma, uma saudação, uma invocação cheia de filial devoção e confiança para com aquela que, sendo verdadeira Mãe de Deus, nos foi dada por seu Filho Jesus no momento extremo da sua vida para ser nossa Mãe”.
Neste ano comemoramos os 300 anos do encontro da imagem milagrosa de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil. Três pescadores, Filipe Pedroso, Domingos Garcia e João Alves, após várias tentativas frustradas no lanço das redes, colheram a maior e mais valiosa pesca de suas vidas. Primeiro, o corpo da santa, em seguida sua cabeça. Para fé daqueles homens o sinal era claro: a Virgem Mãe que não despreza as súplicas de seus filhos em suas necessidades apareceu para socorrê-los.  “E continuando a pescaria, não tendo até então tomado peixe algum, dali por diante foi tão copiosa a pescaria em poucos lanços, que receoso, e os companheiros de naufragarem pelo muito peixe que tinham nas canoas, se retiraram as suas vivendas, admirados deste sucesso” (Este é o relato do Livro do Tombo da Paróquia de Santo Antônio de Guaratinguetá, datado do ano de 1757)[1].
Assim como fez o discípulo amado, Filipe Pedroso levou a imagem milagrosa da “Mãe de Deus e nossa” para sua casa. Posteriormente seu filho Atanásio Pedroso construiu um pequeno oratório onde colocou a Imagem da Virgem. O povo ali se reunia para rezar o terço aos sábados e devido à ocorrência de diversos milagres, a devoção a Nossa Senhora Aparecida começou a crescer. E hoje, somos uma nação consagrada Àquela que apareceu nas águas do Rio Paraíba para socorrer a necessidade do nosso povo, tal como um dia havia feito em Caná da Galiléia. Como outrora, a Virgem Maria “encaminha ao Filho as dificuldades dos homens, obtendo dele as graças desejadas” (São João Paulo II).
Que neste jubileu, onde comemoramos os 300 anos de bênçãos derramadas sobre o Brasil, supliquemos a Mãe Aparecida, que continue a olhar por nosso país e proteja a nós, seus filhos. Aquela, que acreditou nas promessas do Senhor, nos ensine a ter esperança. Ela que soube esperar, e viu realizada a promessa de Deus, nos ensine a esperar ativamente, sem perder a fé, porque a Deus coisa alguma é impossível (cf. Lc 1, 37) e que o Poderoso pode fazer maravilhas em favor do seu povo (cf Lc 1, 49).




[1]Disponível em: <http://www.a12.com/academia/artigos/1717-tres-pescadores-uma-rede-e-um-milagre />. Acesso em: 07 de set. 2017.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

São Francisco de Assis e São Vicente Pallotti

         Hoje, a Igreja celebra o dia de São Francisco de Assis. Ele nasceu em Assis (Itália) , no ano de 1182. Depois de uma juventude leviana, converteu-se a Cristo, renunciou a todos os bens paternos e entregou-se inteiramente a Deus. abraçou a pobreza para seguir mais perfeitamente o exemplo de Cristo, e pregava a todos o amor de Deus. Formou os seus companheiros com normas excelentes, inspiradas no Evangelho, que foram aprovadas pela Sé Apostólica. Fundou também uma Ordem de religiosas (Clarissas) e uma Ordem de Penitentes Seculares; e promoveu a pregação da fé entre os infiéis. Morreu em 1226. 
          Conhecendo um pouco São Francisco de Assis, em que aspecto São Vicente Pallotti se aproxima deste santo seráfico? 
          Pode-se começar com a questão de seu nome. Vicente foi batizado no dia 22 de abril de 1795, na Basílica de São Lourenço, recebendo o nome de Vicente Luiz Francisco. 
          São Vicente fez jus aos nomes que recebera no batismo, pois desde à infância foi fiel imitador do Pobre de Assis, mando como São Francisco a pobreza e dando a mão-cheias tudo o que tinha. Desde muito jovem, Pallotti era devoto de São Francisco. Quis ser capuchinho, mas a sua débil saúde, as oposições do pai e do confessor convenceram-no a entrar no clero secular. Contudo, ele fez o propósito de viver como capuchinho no clero secular; até 1839 dormiu cada noite vestido com o hábito capuchinho, no chão, sobre o cobertor, tendo uma pedra como travesseiro. Por ordem médica suspendeu este costume, mas todos puderam ver no seu quarto como era a sua cama. 
Foto do Museu Pallotti: Hábito Talar, Casula e Hábito Capuchinho. 
          Esta opção pela pobreza franciscana começara antes. no dia 29 de novembro de 1816, festa de todos os santos Franciscanos, recebera o hábito de terciário franciscano.      
         A pobreza é logo doação de si mesmo aos irmãos mais necessitados; assim dizia São Vicente Pallotti: "Ao ver ou pensar nos pobres, procurarei ajudá-los da maneira que for possível para mim, e como a maior glória de Deus me exige mais,  procurarei ter uma grande compaixão de seu estado miserável, de tal maneira que eu gostaria que todas as partes do meu corpo, e até mesmo minha própria alma, exprimissem compaixão e misericórdia; eu gostaria de me tornar comida, bebida, remédio, roupas, posses etc. para sustentar para sempre as misérias deles, e então eu seria transformado em luz para os cegos, voz para os mudos, ouvido para os surdos, saúde para os enfermos, etc."
          São Vicente Pallotti, à luz de São Francisco de Assis, almeja que a compaixão pelos mais pobres "vazasse pelos poros do seu corpo", isto é, que o preencha e transborde aos demais. 
          Que São Francisco e São Vicente nos inspire às atividades apostólicas, no espírito da Santa Pobreza, seguindo os passos Daquele que era rico e se fez pobre por amor a nós. 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Os Anjos na Espiritualidade de São Vicente Pallotti

              Hoje, a Igreja celebra o dia dos anjos da guarda. Desta maneira, gostaríamos de partilhar um pouco sobre a espiritualidade de São Vicente Pallotti em relação a esses seres espirituais.
“Por todo o seu ser, os Anjos são servidores e mensageiros de Deus. Porque contemplam “constantemente a face de meu pai que está nos céus” (MT 18,10), são “poderosos executores de sua palavra, obedientes ao som de sua palavras” (Sl.103,20)”. O coro dos anjos da guarda é uma ordem do Senhor que reavivemos nossa fé nos Anjos da Guarda e, ainda, que procuremos imitá-los. Eles são enviados com a missão de assistir e proteger aos pobres e pequeninos. Transmitem luz divina às mentes e fazem com que os nossos corações sejam movidos docemente, afastando-os do pecado e conduzindo-os à graça. Também os afastam do perigo e os guiam por estradas seguras. Eles jamais abandonam aqueles que os foram confiados pelo Altíssimo, mesmo que estejam em pecado. Tomados de um profundo êxtase, contemplam na Luz Divina, tantos cuidados do Amor Infinito e não cessam de louvar a bondade e a misericórdia de Deus que sempre procura conquistar suas criaturas para se dar a elas por toda a eternidade. 
São Vicente Pallotti chamava os Anjos de “espíritos beatíssimos”. Entendia que eles assistiam aos homens nas precisões da alma e do corpo. Lembrava-se sempre, em suas orações, de agradecer, em primeiro lugar, a Jesus, Maria Santíssima, os Anjos e os Santos.
Anjos são seres puramente espirituais isto é um ser de luz.
Nossa alma é profundamente cheia de necessidades e, para vir de encontro a essas necessidades e livrando-nos de todo o mal, o santo amor de Deus nos presenteia com os Anjos que formam o chamado Coro dos Anjos da Guarda ou Custódios. Eles nunca nos abandonam. Tomam conta de nós dia e noite, mesmo quando estamos em pecado. Eles são dons inefáveis do amor e misericórdia infinitos de Deus. Toda alma tem um Anjo que a protege, que lhe comunica as santas inspirações de bem agir, evitando o mal. Se ela peca, o remorso é despertado. O Anjo nos acompanha em todos os lugares e nos guiam diligentemente ao nosso único felicíssimo término.
Fazer na terra o que os anjos e santos fazem no Céu, este era o desejo de Pallotti em relação a este mundo celeste.
Por isso, assim com o exemplo de São Vicente Pallotti, renovemos a nossa devoção aos anjos da guarda.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Festival Palotino da Canção 2017

“O Todo Poderoso fez em mim maravilhas!" (Lc 1,49)

          Neste último sábado dia 09 de setembro, aconteceu mais uma edição do Festival Palotino da Canção, na casa do Noviciado em Guapimirim – RJ. 
          Todas paróquias palotinas da Região, estavam bem representadas para aproveitar um lindo sábado com sol, reunidos e em união celebrando e ficando um pouco mais perto de Deus. Com o início da Santa Missa, celebrada pelo Padre Josiel, vice superior regional, e concelebradas pelos padres Denis, Gilmar e João Sopicki, aconteceu a abertura do festival. 

          Junto ao altar, rezamos por todas nossas comunidades e meditamos sobre a palavra de Deus. Ao final da missa, recebemos a benção do Santíssimo Sacramento, e em uma pequena procissão, de mãos dadas, seguimos Jesus Sacramentado até a singela capela onde ficou exposto durante todo o festival. 

           Seguido do almoço e tempo de confraternização, meditamos o terço da misericórdia e teve início a apresentação das Bandas das Paróquias. Neste ano o tema mariano “O Todo Poderoso fez em mim maravilhas” e o Lema: “Cantarei para sempre as misericórdias do senhor, cantarei para sempre as misericórdias de Maria” – S. Vicente Pallotti. 

          Com lindos cânticos e muita animação, as bandas apresentaram as canções que estavam realmente muito bonitas. Após um período de pausa, o corpo de jurados definiu os vencedores: 1º Paróquia de Santa Isabel – Bento Ribeiro, RJ 2º Paróquia Imaculada Conceição – Cachoeiras de Macacu, RJ 3º Paróquia S. Sebastião - Niterói, RJ Com muita alegria celebramos esse dia de confraternização, onde podemos estar com os amigos, rever pessoas das outras paróquias, num clima de união e amizade. 

          Que São Vicente Pallotti interceda sempre por todos nós, e que possamos sempre como Maria cantar as maravilhas de Deus.

Camille Santos  

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Entrevista com o neo-sacerdote, Padre Rafael SAC

          Recentemente, a Região Mãe da Misericórdia teve um forte motivo para render graças a Deus. Agradecemos a Deus pela ordenação do nosso confrade, Rafael Moura SAC. E por esta ocasião, Padre Rafael partilhou um pouco para nós seus anseios de um coração sacerdotal. 
          Padre Rafael Moura de Oliveira SAC, nasceu em 05 de abril de 1984, na cidade de Nova Friburgo. Filho de Layde Moura de Oliveira e José Roberto de Oliveira. Ingressou no Seminário Palotino, no Postulado no ano de 2011,  fez o noviciado canônico no ano de  2013, em Cornélio Procópio - PR. Sua Primeira Consagração realizou-se em 01/02/2014. A Consagração Perpétua ocorreu no dia 15 de novembro do ano de 2016. A Ordenação Diaconal aconteceu em 17 de dezembro do mesmo. Sua Ordenação Presbiteral, recentemente, dia 02 de setembro de 2017, na sua Paróquia de origem, Imaculada Conceição em Cachoeiras de Macacu, RJ.
          1. Qual foi a sua motivação ao escolher a passagem "O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas" (Jo 10, 11b) como lema sacerdotal? 
Padre Rafael: Foi por me compadecer com o sofrimento do povo que sente a dificuldade de se aproximar dos pastores.  Esse sentimento de compaixão, me faz buscar ser esse pastor que doa-se para proteger o rebanho.
           2. Como foi a sua preparação formativa até chegar a esse dia tão importante? 
Padre Rafael: Hoje vejo que foi um período de amadurecimento vocacional.  Esta etapa da vida vocacional despertou em mim o anseio de seguir como um discípulo amado e apaixonado por nosso Senhor.
          3. Como foi retornar ao Seminário Maior Palotino como neo-sacerdote e celebrar a Santa Eucaristia?  
Padre Rafael: A palavra que poderia tentar responder a todo o sentimento vivido é Gratidão.  Vir aqui e poder dar o melhor que Deus tem a nos oferecer junto com os irmãos que tanto amo, me faz elevar aos céus toda a gratidão que possa sair do coração humano.
          4. Qual foi a sensação do senhor, quando foi desatada as suas mãos após ungidas, dar a primeira benção aos seus pais?  
Padre Rafael: Olhar nos olhos de meus pais e ver o quanto eles estiveram ao meu lado ao longo de toda a minha vida e lembrar que sem eles certamente não teria chegado onde cheguei, é saber como Deus é generoso comigo por me ter dado a honra dos pais que tenho.
          5. Qual a motivação o senhor diz aos jovens que desejam e/ou já trilham esse caminho vocacional?  
Padre Rafael: Continuem, cheguem até onde Deus quer de suas vidas.  Busquem querer o grande dom que o Pai nos dá, que é participar da vida do seu Filho Jesus.  Nada perdemos tudo ganhamos.  Jesus preenche todos os vazios de nosso coração, Ele é generoso conosco, não tema ser generoso com Ele. 
          Louvamos a Deus pelo chamado realizado na vida de nosso neo-sacerdote. E agradecemos ao Padre Rafael, o seu sim e sua generosidade em doar-se em favor da salvação das almas. Pedimos a intercessão de Nossa Senhora, Rainha dos Apóstolos, que inspire o coração do padre para uma vida santa e de bom pastor. 






quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Discernimento Vocacional

          No dia de hoje, 31 de agosto, último dia do mês considerado das vocações, queremos partilhar um pouco com vocês qual a visão sobre o discernimento vocacional e a verdadeira vocação segundo Pallotti, já encontrado em nossa Ratio Institutionis:
          "A prática do discernimento nasce no Antigo Testamento e se recomenda no Novo Testamento, principalmente em S. Paulo e S. João. O apóstolo João, na sua primeira carta, põe em guarda os cristãos no sentido de que adquiram uma atitude crítica diante das inspirações: “Caríssimos, não acrediteis em qualquer espírito. Examinai primeiro se os espíritos são de Deus” (1Jo 4,1). Nas cartas de S. Paulo encontra-se todo um processo de discernimento da vocação:
          a. Deus dá a certeza da vocação divina: “Quando aprouve àquele que me reservou desde o seio de minha mãe e me chamou por sua graça, para revelar seu Filho em minha pessoa” (Gl 1,15);
          b. Tal chamado deve ser verificado pela comunidade eclesial e pelos seus responsáveis: “Três anos depois, subi a Jerusalém para conhecer Cefas e fiquei com ele quinze dias” (Gl 1,18). Portanto, dentre os critérios, mediante os quais pode-se ter certeza de que uma determinada inspiração provém realmente de Deus, há “o imediatismo de Deus na docilidade eclesial” e “a escuta de Deus na vida pessoal passa necessariamente através da mediação da igreja, na leitura dos sinais dos tempos da sociedade em que se vive”. Aliás, S. Paulo encoraja os Efésios: “Não sejais imprudentes, mas procurai compreender qual seja a vontade de Deus” (Ef 5,17). Entre os sinais que confirmam a vontade de Deus temos a experiência: da assim chamada consolação na oração, de um gosto ou então de uma inclinação para as coisas de Deus, e de um desejo de servi-lo na Igreja de Jesus Cristo.
          Se a palavra discernimento significa “provar”, “experimentar”, “examinar”, ela nos introduz na natureza deste período da formação palotina. É preciso um tempo para provar, experimentar ou examinar o candidato à Sociedade:
          a. a ver se, nele, vêm à tona os sinais de uma vocação à vida consagrada na Sociedade do Apostolado Católico;
          b. se existem as condições fundamentais de saúde, capacidade intelectual, espiritual e moral, necessárias para seguir na vida consagrada;
          c. se e quais sejam as circunstâncias que possam tornar difícil o processo;
          d. Se ele é chamado a seguir Jesus, o Apóstolo do Eterno Pai, na Sociedade e na União;
          e. se e qual ajuda a Sociedade possa oferecer ao jovem para ele entender o sentido de sua vida e descobrir a sua vocação de filho de Deus.
           A vocação é um dom de Deus, mas é também um compromisso da pessoa. Pallotti gostava de falar de correspondência à vocação. ("Corresponder com humildade e gratidão ao divino chamado" - OOCC X, p. 584). Pedia perdão a Deus por sua “pouquíssima correspondência à vocação” (OOCC X, p. 582). Julgava que para ser padre era preciso ter uma vocação (“Vou implorar ao Senhor que não permita que eu, ou outros, entrem para o Ministério Eclesiástico se não são chamados, e que aos que nele já estão os santifique, e que torne chamados aos não chamados, e santifique e faça com que correspondam à vocação os verdadeiramente chamados” - OOCC X, p. 562). Ele falava também do “espírito de sacrifício”, que pertence à vocação (“E, como Nosso Senhor Jesus Cristo entrou no mundo, viveu e morreu com o espírito de sacrifício, assim, com maior perfeição que os leigos devem entrar no Santuário com o espírito de sacrifício” – OOXX I, pp. 157-158.) , enumerando os autênticos sinais dela: “verdadeiro talento, índole admiravelmente antecedida pela graça, inclinação decidida pelo Santuário, e... todas as outras qualidades virtuosas e favoráveis, de que se adornam os que dão fundada esperança de poder chegar a ser ótimos operários evangélicos”.


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A vida fraterna – reciprocidade, reconciliação e unidade na caridade

“Irmãos, se alguém for surpreendido numa falta, vós, que sois animados pelo Espírito, admoestai-o em espírito de mansidão. E tem cuidado de ti mesmo, para que não caias também em tentação! Ajudai-vos uns aos outros a carregar os vossos fardos, e deste modo cumprireis a lei de Cristo. Quem pensa ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo. Cada um examine o seu procedimento. Então poderá gloriar-se do que lhe pertence e não do que pertence a outro.” (Gl 6, 1-4)
            O último capítulo da carta aos Gálatas contém um precioso convite, que se estende as nossas comunidades ainda hoje. Segundo São Paulo devemos corrigir os que erram com mansidão, sem esquecer de ter diante dos olhos, a si mesmo e o barro que fomos feitos (cf. Salmo 102[103], 14). O apóstolo dos gentios convida cada um a cuidar atentamente de si, para que não caiam também aqueles que outrora corrigiam os que erraram. Tal conselho permanece atual para vida de nossas comunidades, a correção fraterna é certamente de suma importância. Porém o modo de fazê-la é a condição para que seu efeito seja de acordo com o esperado. A prática evangélica da correção fraterna sempre foi um eficaz remédio para a vida comunitária, afinal quando caímos nem sempre temos uma visão clara de que erramos.
            Diversas vezes nossas atitudes ferem nossos irmãos sem que percebamos. No entanto a ninguém foi dado, ao menos ordinariamente, o poder de sondar os corações. Por isso se faz necessária uma boa comunicação entre os irmãos. É preciso pontuar com humilde autoridade onde o irmão nos feriu, onde ele pode melhorar para que a comunidade seja sempre uma casa de irmãos. “Em outras palavras, a cooperação e a reciprocidade ou começam em casa ou não começarão nunca” (Ratio Institutionis, 76). A tal reciprocidade também nos adverte nossa Lei suplementar: “Na comunidade os membros se ajudem mutuamente, apreciem uns as qualidades dos outros, acolham-se reciprocamente e alegrem-se com o êxito dos co-irmãos” (LSAC, 257)
            O fato é que, caso não se estabeleça um diálogo sincero após os desagradáveis conflitos comunitários, tendemos a nos fechar. Criamos muros de silêncio e nos encastelamos em nossas razões. Porém esse castelo ilusório é na verdade comoo túmulo fétido e frio de Lázaro morto. No primeiro momento que se fizer necessário remover a pedra, teremos que lidar com estes problemas que estarão em um estado de decomposição ainda pior. Por isso nossa Lei nos convida ao dialogo franco e respeitoso, como meio para que sejam resolvidas eventuais dificuldades. (LSAC, 257).
            O documento A vida fraterna em comunidade no nº26 destaca que “as comunidades, na verdade, não podem evitar todos os conflitos” e que a situação de imperfeição das nossas comunidades não devem nos desencorajar. Visto que a “unidade que devem construir é uma unidade que se estabelece a preço de reconciliação”. Sem o perdão não há meios para que vida comunitária se realize de forma plena. As comunidades que não conseguem exercer a misericórdia, perdoando-se mutuamente, acabam não vivendo “com todo aquele fervor que seria conveniente, motivo pelo qual o rosto da Igreja brilha menos diante” da Igreja e do mundo. (Unitatis Redintegratio, 4)
            O desejo de que a nossa vida comunitária exale o bom odor de Cristo deve preencher nossas casas, e optando pelo testemunho de uma vida em comunidade sadia e fraterna, precisamos necessariamente carregar os fardos uns dos outros, como nos diz São Paulo na carta aos Gálatas. Carregar os fardos uns dos outros implica a reciprocidade no sacrifício pelo bem comum. “Quando alguém se perde pelos irmãos, encontra-se a si mesmo” (A vida fraterna em comunidade, 24). Por isso se faz necessário que cada um suporte com paciência os limites dos outros, pois pelo bem da comunidade outros suportam os nossos limites e misérias que muitas vezes não percebemos. Quantas vezes não somos nós mesmos um peso na vida comunitária, por isso examinemo-nos sempre contando com a graça de Deus. “Se é verdade que a comunhão não existe sem a oblatividade de cada um, é necessário que se afastem desde o início as ilusões de que tudo deve vir dos outros” (A vida fraterna em comunidade, 24).
            Aqui se faz atualíssima a exortação de São Paulo aos Colossenses (3,12-13): “Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência. Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente, toda vez que tiverdes queixa contra outrem. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós”. A vida fraterna exige uma profunda reciprocidade, capacidade para o perdoar e uma consciência profunda dos próprios limites. Acima de tudo, a vida comunitária exige o reconhecimento de que o Amor e a Misericórdia de Deus nos alcançaram antes que pensássemos em responder ao seu chamado divino. Não devemos, portanto, nos espantar com as misérias alheias, pois muito mais o Senhor nos perdoa.
            Neste ponto vale perguntar-nos: será que ao verem nossa comunidade as pessoas poderiam dizer o mesmo que foi dito da comunidade Palotina assassinada na Igreja de São Patrício, em Buenos Aires: “juntos viveram, juntos morreram!”? (“Esta parroquia ha sido ungida por el testimonio de quienes vivieron ‘juntos y juntos murieron’” - Homilia do Card. Jorge Mario Bergoglio, sj na Missa pelos 25 anos do massacre. Buenos Aires, 4 de julho de 2001). De fato buscamos a fraterna unidade em nossas comunidades? Certo é que não há comunidade perfeita, a comunidade ideal ainda não existe neste mundo. Porém também é acertada a afirmação de que, a vida fraterna é um “termômetro” da vida espiritual de seus membros, ou seja, a vida comunitária reflete a vida espiritual dos indivíduos que a formam. Por isso precisamos ser construtores e não somente consumidores da comunidade, o ideal comunitário exige de nós a conversão de toda atitude que possa ser obstáculo a graça de Deus e a comunhão fraterna. (A vida fraterna em comunidade, 23-24).
             “A caridade de Cristo nos impele” (2 Cor 5,14) a irmos ao encontro dos irmãos deixando nossas pedras no chão, tomados pela consciência de nossos pecados, certos de que muito mais Deus tem feito por nós. Para que a nossa vida fraterna exale o bom odor de Cristo precisamos nos derramar como o bom perfume aos pés do Senhor, precisamos gastar nossos melhores esforços e nosso precioso tempo com nossos irmãos. Lembrando que ser celibatário implica um parcela de solidão, porém “Deus, nosso Criador, quis que precisássemos uns dos outros para que vivêssemos em unidade uns com os outros [...].Na realidade, se você vive sozinho, vai lavar os pés de quem? De quem vai cuidar? Como é que você vai fazer para se colocar no último lugar se mora sozinho? […] A vida comunitária é, portanto, um estádio no qual nos exercitamos como os atletas, um treinamento que nos faz progredir, um exercício contínuo de aperfeiçoamento nos mandamentos de Deus" (São Basílio Magno).