Nos Documentos da fundação, um livro de compilações de textos do
próprio fundador, podem ser encontrados comentários e explicações preciosas
acerca do Oitavário da Epifania de São Vicente Pallotti, feitos pelo Pe. Josef
Zweifel, SAC. E é apoiado nestes comentários e de outros grandes autores
palotinos que apresentamos este breve artigo. Este texto nada mais é que um
recolhimento de informações acerca deste tema fundamental e tão querido a nosso
fundador.
No
Colégio da Propaganda Fide, onde foi
diretor espiritual, Vicente Pallotti participou das celebrações relacionadas à
festa litúrgica da Epifania. Ali se celebrava o Santo Sacrifício da Missa em
todos os diversos ritos litúrgicos da Igreja Católica, dando ênfase aos ritos orientais, como o
armenio, o caldeu, o sírio maronita, o grego entre outros. Nos oito dias que
se seguiam à Solenidade – a oitava da Epifania - acontecia a “festa das
línguas”. Ou seja, os alunos “proferiam discursos e declamavam poemas em honra
do Menino Deus, em suas respectivas línguas maternas”. Assim escreve acerca das
origens do Oitavário da Epifania o Pe. Dorvalino Rubin: “São Francisco de Assis
e São Vicente Pallotti, diante do mistério do Natal tiveram, cada qual a seu
modo, viva impressão que depois quiseram ver sensivelmente expressa e
celebrada. (...) São Vicente Pallotti, diante do presépio, vê representados os
magos que, pagãos, chamados de longes terras por uma estrela misteriosa, crêem
e vêm adorar o Deus que, no meio ao povo de Deus da Antiga Aliança, se fizera
Menino. Ele vê aparecer aí representada, nas imagens e na liturgia toda da
festa, o seu Apostolado Católico: a vocação de todos os que crêem para fazerem
chegar a luz da fé aos que não crêem em Jesus Cristo. Veio-lhe a idéia de
transformar a comum celebração litúrgica, durante oito dias em que durava a
festa da Epifania em grandes celebrações populares e, desta forma, procurar
fazer chegar a fé a todos os que não a tivessem. Era o Oitavário da Epifania,
celebrado desde 1836.”
Logo
que assumiu a reitoria da igreja do Espírito Santo dos Napolitanos, em 1835,
Vicente Pallotti passou a preparar a celebração da Epifania em dimensões
populares, buscando tocar a todo povo da Cidade Eterna, Roma. O cartaz
elaborado por Pallotti convidava todos os fiéis de Roma para: “...um sagrado
Oitavário... em favor da propagação da fé”(cf. OOCC VI, 118-120). Vicente
Pallotti desejava, com esta celebração, oferecer ao povo romano um
aprofundamento na fé católica, além de uma renovação da vida cristã dos fiéis.
“A participação do povo de Roma superava, sempre, toda expectativa” - escreveu
H. Schulte. O tradutor de nossa edição dosDocumentos da
Fundação apresenta em uma nota o relato de
Francisco Amoroso, grande estudioso de Pallotti, acerca da presença do papa Pio
IX em um dos Oitavários: “... ao ouvir que tinham sido distribuídas 5.000
comunhões, [o papa] fez um gesto de admiração. Mas Dom [padre] Vicente, pensativo, não estava satisfeito e o papa
observou: -‘Bem que eu dizia que Dom [padre]
Vicente teria resmungado!’”
Quanto
à disposição do espaço sagrado, sempre era montado um grande presépio com os
três santos magos em adoração. Dizia São Vicente que na
igreja, deveriam ser expostas“imagens -
quadros ou estátuas – do mistério da Santa Epifania. A ornamentação deverá ser
séria, digna, simples e solene, com lampadários e velas em abundância”.
Recordando assim a centralidade do mistério da Epifania, ou seja, da
manifestação de Cristo ao mundo, como Luz que vem iluminá-lo! Deste modo a
mensagem cristã se manifestava singularmente universal, superando os limites do
povo de Israel e atingindo com sua salvação a todos os povos pagãos. G.
Ranochini afirma que “a Epifania efetivamente, é a manifestação de Jesus aos
gentios, é a festa dos povos que entraram no Rebanho, é o chamado luminoso da estrela
que convoca todas as almas a se prostrarem diante de Jesus para adorá-Lo”.
Por
isso Vicente Pallotti desejava que essa celebração fosse realizada também fora
de Roma "... em cada cidade, em cada país, em cada lugar, com o objetivo
de corresponder aos anelos da Igreja e de estimular a fé e o zelo do povo
cristão" (OOCC I, 349). Padre Stanislaw Stawicki expressa de maneira clara
a ligação entre esta grande celebração e toda a obra de nosso fundador:
“Pallotti unia estreitamente a celebração [do Oitavário da Epifania] e a
fundação [que é a União do Apostolado Católico] não somente porque ela exprimia
com clareza e exatidão o pensamento e o carisma desta, mas também porque o
Oitavário tinha uma finalidade eminentemente apostólica e missionária. Querendo
que a pia união fosse, na Igreja, como um clarim Evangélico, via o Oitavário da
Epifania também da mesma maneira. Eis porque Vicente fez a festa das línguas
sair do Colégio Urbano e a transformou numa grande celebração da fraternidade
católica de Roma”.
Padre
Stawicki continua a sua analise precisa e profunda: “De fato, o mundo eclesial
de sua época estava dividido entre ‘católicos liberais’ e os ‘intransigentes’
(os conservadores e tradicionalistas), entre os de clero regular e de clero
secular, entre leigos e clérigos, entre pastores e ovelhas, entre os ritos do
Oriente e do Ocidente. Vicente Pallotti convidou a superar essas divisões,
rivalidades e invejas”.
É bem sabido que o nosso
atual tecido eclesial e social não se manifesta de forma tão diversa daquele
antigo, da época de Pallotti. Cada vez mais vemos acentuar-se certa polarização
dentro e fora da Igreja. Contudo permanece válida a máxima que um dia ouvi de
um de meus formadores: “nenhum extremo é de Deus”! Por isso devemos ter cuidado
com as ‘pontas’, com os extremismos que nada têm a que ver com o verdadeiro
radicalismo evangélico. Quando não buscamos a justa medida das coisas, o
equilíbrio reto e sadio na vivência do cristianismo, corremos o risco de
caminhar na direção e à beira de um ‘abismo’. Ali não se ouve senão o eco de
nossas próprias ideias; ali já não é possível ouvir o a voz do outro, o clamor
do irmão e o apelo salvífico da Palavra de Deus. O mandamento primordial da
caridade fica sufocado! Quando nos fechamos em nossas concepções pouco
evangélicas de ‘liberalismo’ e ‘conservadorismo’ religioso, torna-se impossível
ver o rosto de nossos irmãos, tampouco se pode
ver o rosto de Deus que se manifesta de formas
diferentes e na própria diversidade. E daí, passamos a ter diante dos olhos somente
os nossos altos “ideais”, e perdemos de vista que o cristianismo brota do encontro
com uma Pessoa, Jesus Cristo (Bento XVI). A Palavra viva e encarnada
deve se torna o nosso critério de convivência e
encontro.
Mais do que nunca o carisma palotino
se apresenta atual. De fato, o palotino deve ser um sinal de unidade na Igreja,
deve ser um “fazedor” de pontes, ligando extremos que já não podiam, de outra
maneira, tocarem-se. Promover a cooperação no seio da Igreja e entre todos
homens não é uma opção para nós, palotinos, mas é uma obrigação! E tudo isso se
manifesta na intuição profética de São Vicente Pallotti que teve sua expressão
litúrgica no Solene Oitávario da Epifania. São Vicente queria, com estas
celebrações, anunciar a “Unidade na Caridade”, apontado a Igreja como este novo
povo Deus que vive do Corpo e da Palavra de Cristo, de modo que “o próprio povo
chega a transformar-se em Corpo de Cristo” (J.
Ratzinger). A unidade deste verdadeiro Corpo do Senhor, a Igreja, se manisfesta
“na unidade do único pão que partimos” (idem).
São Vicente Pallotti conseguiu
perceber, na rica diversidade da Igreja, manifestada nos diversos carismas e
fundações, nos vários ritos e línguas nela presente, um traço de unidade: permanece sempre presente a “força
geradora de unidade do corpo de Cristo”. E pelo próprio “sacramento do pão
eucarístico, ao mesmo tempo é representada e se realiza a unidade dos fiéis,
que constituem um só corpo em Cristo" (ECCLESIA DE EUCHARISTIA - São João
Paulo II).
Fr. José Luiz Alves da Silva Jr. SAC
Obs.: Caso você também seja Leitor da Revista Rainha dos Apóstolos, possivelmente já tenha tido contato com este artigo. Contudo lá a autoria foi credita a outro autor - por um pequeno descuido dentro desta grande quantidade de detalhes. Obs¹.: As fotos são site geral da Sociedade do Apostolado Católico (sac.info)
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