A criança que eu fui

 
Quem se aproxima da origem se renova” Manoel de Barros

Todos os dias, me pergunto aonde deixei a criança que um dia eu fui? Essa criança que me dava à mão para caminhar quando eu ainda não sabia; que ficava ao meu lado, me transmitindo confiança, quando estava com medo de viver; que escutava as minhas inquietações e respondia-me com sabedoria. Tenho a buscado, mas aonde encontrá-la?
Perdi-me desta criança. Quando foi que isso aconteceu? Provavelmente, quando tive vergonha dela. Eu queria ser grande, autossuficiente, independente. Tolo que fui! Acaso sou Deus, para não depender de nada? Tolo que fui! Meu orgulho e minha soberba me levaram por caminhos que me distanciaram da minha origem. Ah, se eu tivesse dado o devido valor à criança que eu um dia fui, seu tivesse acreditado no pensamento de Kierkegaard que dizia que o homem seria metafisicamente grande se a criança fosse seu mestre”. Agora, saio à procura desta criança.
Busco-a nos prazeres perecíveis. Não a encontro. Encontro outras pessoas como eu, perdidas de si mesma. Busco-a no poder. Não a encontro. Encontro o abismo da finitude. Busco-a fora de mim. Não a encontro. Desespero-me, encontro com um espelho que reflete a minha imagem. Um velho rabugento, com aspecto horripilante, morto-vivo. Fujo. Mas para aonde? Para dentro de mim, há quanto tempo não ia lá!
Que medo! É um lugar estreito e profundo. Que saudade daquela criança. Se ela estivesse aqui me daria à mão e caminharia comigo. Eu me sentiria seguro para caminhar. Mas ela não está. Preciso caminhar, lá fora há um monstro.
O caminho me angustia, tenho que trilhá-lo para sair logo dele. Caminho. O caminho estreita cada vez mais. Bate uma fobia. Aperto o passo. Depois de tanto andar, sinto algo diferente. O medo dá lugar à alegria. Que alegria é essa? A alegria do parto. A alegria do nascimento. Lembro-me que tenho vida, que existo. Vejo uma luz no fim do caminho. Nasci. Encontrei a criança que eu fui. Que lindeza! Encontrei minha origem, renasci, renovei.
Esse nascer me fez despertar de um sono de morte. Aquieto o meu coração. Penso na vida, mas que vida? Essa vida que passa como o sopro? Essa vida que parece um sono da noite, que é despertado pelo amanhecer? Não penso na vida plena, eterna.
Acaso a morte é um fim? Não, a morte não é um fim, mas é uma passagem para a vida plena. É como um parto. No parto, a criança se depara com o mundo. Para a criança aquilo é o infinito, pois ela estava acostumada com o útero de sua mãe e a para ela tudo se reduzia a ele. Agora aparece um novo útero, o mundo. Ela se espanta (tháuma). Ela chora, é o seu primeiro filosofar: - “O que é isto?” (tì estin). Ela se depara com a existência. Ela sofre a paixão (páthos) pelo infinito. Essa paixão será o combustível dos seus dias, até chegar ao verdadeiro Infinito. Mas o que a morte tem haver com isso? Morrer é como o parto. Deixamos o útero deste mundo, nos deparamos com o Infinito, só que diferente do primeiro parto, não choramos mais, pois diante do Infinito não há choro, nem gemidos, mas o sorriso. Não o sorriso físico, mas o sorriso da alma. Completamos-nos e aí somos plenos. Não morremos, entramos na vida.

Irmão Elson Carvalho, SAC

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